Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2005

Intolerância - Egito censura o ventre na dança do ventre

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Mistura de preconceito e conservadorismo religioso deixa as dançarinas na mira da polícia moral egípcia Egito censura o ventre na dança do ventre PAULA SCHMITT ESPECIAL PARA A FOLHA, DO CAIRO
Mais uma noite de dança do ventre no Nilo, em um dos vários barcos que navegam o rio enquanto os clientes jantam e apreciam o show. O barco se move. A Torre do Cairo desponta pela janela, o prédio da Rádio e Televisão Egípcia passa devagar, o Ministério das Relações Exteriores mostra orgulhoso o junco faraônico que decora as suas colunas. No bufê, falafel, tabule, kafta. A música árabe avisa aos comensais que a dança do ventre vai começar.
Nada pode ser mais egípcio. Ou pode? No palco, uma mulher ruiva, de olhos azuis e pele alvíssima mostra o que é que a norueguesa tem. Majken Waerdahl -ou Hanin, para o público- tem 27 anos e dança há seis. Assim como outras estrangeiras, Hanin conseguiu unir prazer e trabalho ao vir para o Egito e ocupar o lugar de uma espécie que já está se tornando raridade: a "legítima" dançarina do ventre. O desaparecimento das egípcias nessa arte tem causas não confirmadas, mas cada dia mais evidentes. O motivo principal parece ser uma mistura de preconceito com conservadorismo religioso. Segundo Farida Fahmy, diva do folclore egípcio, ex-bailarina e mestre em etnologia da dança, o país tem uma "relação de amor e ódio" com a dança do ventre. "Os egípcios podem até ir ao show, mas vão sempre olhar as dançarinas com menosprezo." A própria Farida deixa escapar um desprezo todo seu: "Nosso grupo de dança folclórica mostrava a dança do ventre com decência e arte, não com o intuito de seduzir". Farida explica que as egípcias "nascem com a dança do ventre no sangue", mas são imediatamente dissuadidas do hábito. "Enquanto a filha tem 6 anos ou 7 anos de idade, a mãe acha bonitinho vê-la dançar. Mas, assim que a menina cria corpo, a mãe proíbe a filha dizendo que aquilo é indecente." A repressão não fica só no âmbito familiar.

A Adab, ou "polícia moral", faz incursões por hotéis e casas noturnas para se certificar de que as dançarinas estão cumprindo o seu código de bons costumes. As restrições são tantas que a dança do ventre pode em breve se tornar dança do pescoço, a única parte do corpo que parece ter sido esquecida pelos censores.

De acordo com a Adab, as dançarinas não podem deixar as coxas à mostra e, num desafio à semântica, não podem mostrar o ventre. A região que vai da cintura ao seio é usualmente coberta com uma rede ou meia fina, qualquer coisa que pareça cumprir a lei. Algumas dançarinas preferem cobrir-se por completo. "Eu não me arrisco, cubro tudo e me livro de ser mandada para a cadeia", explica Hanin. A inglesa Francesca Sullivan, dançarina do ventre e jornalista, explica que nos hotéis cinco estrelas, ao contrário dos cabarés, ainda é possível burlar a lei. Mesmo assim, muitos hotéis preferem não arriscar. "Os policiais vêm aqui e multam a gente", explica Hisham Abdelaziz, gerente do cinco estrelas Semiramis.

Como o ventre deixou de ser a atração principal, vale tudo para entreter o público. Completamente coberta com seu vestido vermelho, a dançarina Sohair tentava animar o público balançando um deslocado guarda-chuva, lembrando mais o frevo do Nordeste brasileiro do que qualquer expressão cultural do Egito desértico. As consequências já são visíveis. De acordo com a Autoridade de Arte Egípcia, em 1957 havia cerca de 5.000 dançarinas do ventre profissionais. Atualmente apenas 380 estão registradas. E o registro é feito junto à Adab, a polícia moral, não nos sindicatos -dançarinas do ventre não têm representação. Para o empresário Omar Said, muçulmano que não bebe, não fuma e reza cinco vezes por dia, "a atmosfera geral do país está conduzindo a nação para o fundamentalismo religioso e a intolerância".

Para Said, arte e religião não deveriam se misturar. "O Islã, por exemplo, não admite o culto a imagens, mas nem por isso nós vamos destruir as estatuas faraônicas." Se por um lado o Egito está diminuindo a produção de dançarinas locais, o país continua sendo o centro mundial para a exportação da técnica. Em meados do ano passado, a professora de dança do ventre Rakeia Hassan reuniu 170 dançarinas do mundo inteiro para uma oficina de dança do ventre. Entre elas, alunas e professoras de Estados Unidos, Itália, Noruega e nada menos que 35 professoras do Japão. A excelência na dança do ventre, porém, parece estar com as egípcias. Para Francesca Sullivan, estrela da dança do ventre, loira e relativamente famosa, as egípcias vão ser sempre melhores. "Elas têm um jeito de se comunicar com a platéia, uma empatia que é essencialmente egípcia. Tem a ver com a linguagem corporal da cultura deles, gestos, músicas, letras. A dançarina e a platéia partilham do mesmo subtexto". A professora Rakeia concorda. Em meio a 15 alunas francesas -donas-de-casa, empresárias e estudantes- que vieram ao Egito exclusivamente para duas semanas intensivas de dança do ventre, Rakeia ecoa o que foi repetido por todas as 11 dançarinas profissionais estrangeiras entrevistadas para esta reportagem. "O ritmo das egípcias está no sangue. É o mesmo que eu tentar sambar. Você acha que eu vou sambar como uma brasileira?" / Folha de São Paulo - 28/01/2001
publicado por Jufih às 05:58

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3 comentários:
De Anónimo a 7 de Fevereiro de 2005 às 22:11
Pois é, tudo isso acontece devido ao extremismo. Tudo o que é exagerado, faz mal. Devemos buscar sempre o equilíbrio. Mas na busca do equilíbrio, ás vezes, temos que ir de um extremo ao outro, gerando assim, diversas injustiças... Tomara que o nosso mundo encontre logo o equilíbrio, para que possamos viver felizes e em paz. MORE, TE AMO. Oi Nurayni!!! Muito obrigada por enriquecer o blog :) Beijos
Jufih Jufih Maat Ayuni
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(mailto:jufih@sapo.pt)
De Anónimo a 7 de Fevereiro de 2005 às 14:51
OI Ju...pois é né...quanta hipocrisia...na semana passada se não me engano, saiu uma reportagem na revista Veja sobre outra hipocrisia do Egito...falava de um escândalo: o primeiro exame de DNA para confirmar paternidade da historia do Egito...pra eles isso foi uma vergonha...e olha só os contrastes...na mesma reportagem, a mulher que pediu o exame revela que para fugir daquele casamento tradicional, o lei egípcia permite um casamento de faz de conta, onde os parceiros firmam um contrato dizendo claramente que nao tem compromissos um com o outro e que é temporário...só pra poderem desfrutarem dos prazeres da carne dentro da lei...que hipocrisia absurda não é? Será que Alá aprova esta lei? Eu sabia que eles eram hipócritas...mas a este nível...fala sério!!!! A mulher que está pedindo o exame de paternidade diz ter fimado um contrato destes com o pai do seu filho, um ator famoso da TV arabe, que, claro, nega tudo!!! Não dá pra se conformar né!! Isso porque estamos no século 21!Nurayni
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(mailto:rubia@predialnet.com.br)
De Anónimo a 7 de Fevereiro de 2005 às 14:44
Triste essa preocupação com as bailarinas no local onde TUDO COMEÇOU. Acho que ARTE E RELIGIÃO se combinam sim. Infelizmente a arte não é visto como uma coisa seria em alguns paises deixando o mundo ainda mais revoltado e triste. Imagina se no nosso mundo não existisse a arte. Não só vejo a arte com grande importancia pra humanidade como tbm acho que tudo que dura não pode ser mexido. A dança do ventre é uma dança milenar. Nunca foi modificado por completo. Respeitem a arte como ela é, principalmente da sua região. Cada pais tem a sua arte e é feliz com isso.
Valeu gateeeenha. bezão
Davi LeonDavi Leon
(http://comics.zip.net)
(mailto:davi.leon@uol.com.br)

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